sexta-feira, 1 de abril de 2011

A fuga

 Talvez o leitor nunca tenha ouvido assim como eu nunca havia, de Semiótica Peirciana.

Charles Sanders Peirce( 1839-1914) foi um gênio americano do final do século XIX e início do XX que se dedicou dentre tantas coisas ao estudo dos signos. Não, não são os do zodíaco! Para Peirce, signo é linguagem, ou seja, tudo aquilo que gera comunicação: desde palavras até as células que formam um embrião.

Charles Sanders Peice- Filósofo Americano
 Assim sendo, ele se difere dos linguistas tradicionais que se limitam à linguagem verbal. Para Peirce, o homem interpreta tudo que o cerca numa concepção triádica da firsteness (primeiridade, secundidade e terceiridade). A Firsteness ou primeiridade seria o campo do sentimento, uma interpretação emocional como uma música, um poema, um quadro, um sabor ou um odor. É o campo dos sonhos, do irreal, das fantasias. É o lugar onde podemos ser e fazer tudo que quisermos, mais ou menos como nos sonhos de Dicaprio em seu último e premiado filme Inception (A Origem). Somos os donos do mundo e o destino se curva aos nossos desejos. Mas existe a Secundidade para nos trazer de volta à realidade. É a arena do cotidiano, é energia, movimento, dor. Quando tomamos consciência de que uma coisa existe de verdade, estamos na secundidade. Finalmente, Terceiridade corresponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo. É a previsão de fatos futuros baseado na experiência da Secundidade.
Agora, diga-me, caro leitor, qual das “idades” mais lhe atraí?
Quando Russel diz em seu texto Minha vida (primeira publicação desse blog) que dentre as três paixões que moveram sua vida (amor, conhecimento e compaixão), essa última sempre o trouxe de volta à Terra, referia- se à volta para as desgraças de nosso planeta: pobreza, morte e dor. E fala isso com um um grande ar de tristeza, pois se pudesse, ficaria para sempre na Primeiridade, aquela dos sentimentos mais nobres e das possibilidades jamais imagináveis. Entretanto, não nos é permitido a estada eterna nesse lugar tão almejado. Aliás, quanto mais tempo insiste-se em ficar nesse mundo, mais duro e difícil é irremediável volta à vida real. Foi esse o dilema que sofreu a personagem que representava a mulher de Dicaprio em A Origem.


Inception (A Origem) Filme
 O mundo dos sonhos lhe parecia tão real e perfeito que quando ele trouxe-a de volta ela enlouqueceu. E num ímpeto, num ato de esperança de poder viver para sempre aquele sonho, ela comete suicídio, indo parar na sextaidade, ou seja, o inferno! (há há há, acabei de inventar essa 666idade! Bem, pra um bom lugar a insana não deve ter ido, visto que não nos é de direito tirar a própria vida, em hipótese alguma). O consumo de alucinógenos, um dos caminhos mais drásticos para se alcançar a Primeiridade, nada mais é do que uma fuga da realidade. Os viciados sempre buscam negar suas vidas, fugir dos problemas num ato tão covarde quanto o suicídio. Afinal, é sempre mais fácil escapar dos problemas do que enfrentá-los de frente, não é? Sim, a rotina é massante, o cotidiano enjoa e as vezes a vontade que nos dá é a de fugir, correr, desaparecer. No entanto, será que isso nos livraria de nossos problemas ou nos traria ainda mais deles? Fico com a segunda hipótese. Já dizia a frase de almanaque (perdoem-me a mediocridade com que termino um assunto de tamanha intelectualidade!):
“Ninguém disse que seria fácil, mas sim que valeria a pena.”

Muito Obrigada.

Source:
Aulas do Professor Gerson Tenório
Santaella, Lúcia Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.
Santaella, Lúcia O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983 (Coleção primeiros passos)
Wikipédia Portugal : http://pt.wikipedia.org/wiki/Semi%C3%B3tica

2 comentários:

  1. Muito bom este artigo. Independente de se tratar de um assunto acadêmico, pode-se absorver uma reflexão,(e/ou explicação), correlata a acontecimentos atuais, exemplo disso foi o ocorrido em Diadema SP.Uma família religiosa resolveu rasgar dinheiro, picotar documentos, abandonar seus empregos e apenas com a roupa do corpo, saíram vagando a esmo pela cidade pregando sua fé apenas com a roupa do corpo e MAIS NADA!!!
    Gostei muito de sua citação sobre o filme "A Origem" como exemplo ilustrativo a fim de explicar melhor a Primeiridade. Ótima alegoria.
    Meus parabéns professora Analice por seu BLOG e continue escrevendo mais artigos.
    Um forte abraço.

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  2. Muito Obrigada, Fernando!
    Estou aprimorando esse projeto a cada dia, mas saber que existem pessoas que se interessam me deixa ainda mais animada!
    Abraços

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